Pessoas NEGRAS não são fantasia: carta de repúdio ao bloco carnavalesco Garibaldis & Sacis

No último dia de desfile do bloco carnavalesco Garibaldis & Sacis, que aconteceu dia 08 de fevereiro de 2015, um dos integrantes que estava em cima do trio elétrico, utilizava uma malha ou tecido da cor preta sobre o corpo, numa tentativa ridícula de se caracterizar como uma pessoa negra, ato este que é conhecido como blackface. O blackface é uma prática racista que existe desde meados do século XIX, sendo utilizada para ridicularizar as pessoas negras, desde a sua cor às suas formas corporais; e por mais que os praticantes do blackface interpretem isso como uma prática carnavalesca sustentada no discurso de que nada mais é que uma brincadeira, ele é sim altamente racista.

blackface

Este tipo de representação faz parte de uma cultura praticada por pessoas brancas, e não representa as pessoas negras e/ou sua cultura no carnaval, mas reitera sim estereótipos e preconceitos. No Brasil essa prática teve início na década de 1950 com a Nega Maluca de Evaldo Ruy, que em nada também representa a mulher negra, pois mulher negra não é fantasia. Todos usam e abusam da imagem das pessoas negras, com seus corpos sendo expostos como mercadoria, momentos como esse do carnaval o negro é cooptado, é disputado, assim como no futebol, mas não há o mesmo interesse em ter o negro como parte das fileiras dos milhares de formandos em medicina, direito, psicologia, odontologia, ou qualquer outro curso de graduação e tudo mais que diz respeito ao desenvolvimento efetivo da população negra e do país.

Está mais do que evidente que a juventude negra vem sendo assassinada e perseguida diariamente. Em 2012, 77% dos jovens assassinados no Brasil eram jovens negros. A juventude negra é massacrada constantemente pelo racismo, seja por palavras ou por atitudes, e a grande maioria dos assassinatos de pessoas negras não é investigado corretamente [1].

É válido lembrar que dois dias antes da última apresentação do bloco carnavalesco, no dia 06 de fevereiro, 12 jovens negros foram assassinados pela PM de Salvador e o governador da Bahia, Rui Costa, apenas declarou que a polícia militar deve agir como artilheiro de um jogo de futebol, pois em poucos segundos tem que decidir como agirá. Um governador que em nenhum momento declarou-se contrário a ação da PM, de matar 12 jovens negros. O massacre da juventude negra acontece diariamente, diante de nossos olhos e é realmente muito triste perceber que existem pessoas que em nenhum momento param para refletir sobre as consequências de suas ações, sobre seus privilégios. Blackface não tem desculpa, não tem explicação! Blackface é racismo! E racismo não pode e não deve ser aceito!

Estamos falando de um país onde a maioria da população não é branca, é negra. Estamos falando de uma realidade nacional onde ser negro, pobre e periférico, é ser visto como marginal, bandido, criminoso. Estamos falando de um país onde crianças e jovens negros não possuem total acesso à educação e são mortas diariamente. Estamos falando de um país que se diverte e dá risada com o blackface no carnaval, reificando a ideia que o negro é um personagem caricato brasileiro, uma coisa que pode ser usada e emprestada quando bem quiser. Pessoas negras não são fantasias carnavalescas para pessoas brancas, são vidas, existem e sofrem com o racismo.

Expressamos, assim, total repúdio ao bloco Garibaldis & Sacis, que com o patrocínio da Fundação Cultural de Curitiba (ou seja, nosso dinheiro também) reproduz um estereótipo grotesco, contribuindo com o racismo da população brasileira ao disseminar esta prática infeliz que é somente mais um dos vários instrumentos racistas que a população negra tem que lidar diariamente. Artistas como estes que tem um grande público e reconhecimento, além de recurso visual e performático, utilizam suas formas de expressões artísticas em favor do racismo, prestando total desserviço e contrariando toda a luta que os movimentos negros vem travando contra o preconceito e contra o mito da democracia racial.

E se existiu blackface em um trio elétrico que era para trazer alegria e diversão às pessoas que estavam em Curitiba no último domingo, nós, pessoas negras, esperamos que nas próximas comemorações carnavalescas, o bloco Garibaldis & Sacis não esqueça que seu público é feito, também, pelas pessoas negras, que certamente se sentiram ofendidas com o racismo escancarado no blackface de um dos seus integrantes. O bloco ou desconhece a história da população negra ou a ignora.

Por fim, exigimos um esclarecimento do bloco Garibaldis & Sacis, pois, mesmo que a sociedade curitibana muitas vezes acabe pensando que não existam pessoas negras em Curitiba, nós estamos por aqui também! Nós, pessoas negras, não queremos que o carnaval se transforme em mais uma data onde o racismo seja veiculado através de “brincadeiras” preconceituosas, onde ele seja assunto velado e pouco discutido. Se é para falar das pessoas negras no carnaval, que se fale de nossos problemas, que nos deixe ser parte da formação do carnaval em Curitiba, pois aos nos colocar como fantasia, nos coloca, mais uma vez, como coisa, objeto sem valor, a carne mais barata do mercado.

Assinam essa carta:

Coletivo Sou Neguinh@ – UFPR
Priscila Souza – UFPR
zahara
Brinsan Ferreira N’tchala
Marjory Rocka
Marco de Oliveira
Eduardo José de Araújo – UFPR

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17 respostas para Pessoas NEGRAS não são fantasia: carta de repúdio ao bloco carnavalesco Garibaldis & Sacis

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  2. M Guiraud disse:

    Para constar à falta de desinformação do(s) autor(es), a fantasia era de NORDESTINO, uma homenagem ao povo que inspira cultural e socialmente os trabalhos do bloco de forma profunda e presente diariamente.
    O bloco Garibaldis e Sacis, assim como o grupo Mundaréu são dois dos maiores apoiadores e articuladores da cultura popular brasileira em Curitiba.

    • zahara disse:

      para constar a sua falta de informação, blackface JAMAIS será homenagem.

      GENTE será que tá difícil entender?

      SE LIGUEM que existem pessoas NEGRAS que se sentiram ofendidas com o blackface feito em cima do trio elétrico. não queremos a carteirinha de defensores da cultura negra de ninguém, queremos RESPEITO pela EXISTÊNCIA das pessoas NEGRAS! é isso. simples.

      ninguém é perfeito. as pessoas erram. o bloco errou feio. não só do meu ponto de vista, como do ponto de vista de várias pessoas negras. o mínimo que se espera diante disso, é que se repense a prática blackface do bloco. o que nós esperamos que aconteça, pois como estão falando, se o bloco é defensor da cultura negra, deve ser defensor das pessoas negras. e se existe pessoas negras ofendidas com o blackface em cima do trio elétrico… bom… ai vai do bloco saber o que fazer.

  3. Rosele Paschoalick disse:

    Não me pareceu que o bloco tivesse pautado a questão do negro. No texto se escreve: “[…] se é para falar das pessoas negras no carnaval que falem dos nossos problemas […]”. Acredito que compor um personagem é diferente de se “fantasiar de negro”.

  4. Rosele Paschoalick disse:

    Desculpe, mas não entendi: “falar desse modo é para evitar ataque racista”? Ataque por parte de quem? Evitar qual ataque? Sinceramente não compreendi.

    • zahara disse:

      Agora mesmo, no grupo do facebook da Marcha das Vadias de Curitiba, pessoas estavam defendendo o bloco com argumentos que dizem respeito que a ação do blackface “foi artística bla bla bla”.

      Vamos pegar o contexto inteiro da frase: “Se é para falar das pessoas negras no carnaval, que se fale de nossos problemas, que nos deixe ser parte da formação do carnaval em Curitiba, pois aos nos colocar como fantasia, nos coloca, mais uma vez, como coisa, objeto sem valor, a carne mais barata do mercado.”

      A intenção de inserir essas frases no fim do texto, foi de se prevenir contra MAIS ataques racistas que se pensou que o bloco pudesse ter. E eles tiveram. A intenção foi a de mostrar uma outra forma, essa não sendo racista, de falar sobre as pessoas negras, e essa outra forma é colocando as próprias pessoas negras em cima do trio elétrico, não uma pessoa com blackface.

      Se essas frases, de alguma forma, te ofenderam, nós mudaremos a estrutura delas. É só avisar. 🙂

  5. Jorge Cavalcantti disse:

    eu já havia lido sobre blackface, mas fiquei com uma dúvida, se por a caso pretendo me fantasiar (e carnaval é a grande festa onde as pessoas se fantasiam) de algum personagem negro (suponhamos que quero me fantasiar de Pelé). Para tal, na hora compor a fantasia eu me pinte de negro afinal o pelé é negro, isso seria racismo? E por que? Estou perguntando sem tom de ironia nem nada, é só pra eu aprender mesmo.

    E caso eu me fantasiasse de mulher, isso seria machismo?
    Sei lá, se me fantasiasse de índio, isso seria tbm racismo com indigenas?

    Imaginem, não tem como eu me fantasiar de cacique, de alguma personagem mulher (suponhamos quero me fantasiar de Ana Maria Braga) ou de Pelé, sem tentar ficar o áximo parecido com eles.

    Gostaria de saber a opinião de vocês.

    *E de fato, nesse bloco só tem gente branca, eca.

    • zahara disse:

      Jorge, antes de mais nada, é bom que eu fale que esse blog é meu, de Zahara. a carta foi escrita por quatro mãos, minhas e de Priscila Souza. por isso, responderei as suas questões dentro da minha visão e somente por ela.

      eu não conheço as pessoas que integram o bloco Garibaldis & Sacis. na verdade, não sei se devo falar bloco carnavalesco ou grupo ou sei lá o que, não sei. por isso, não sei se no bloco existem somente pessoas brancas. não entendi o “eca”, pois desde que as pessoas brancas reconheçam sua zona de privilégios na sociedade racista que temos, não vejo problema nisso. não vejo problema na cor da pele das pessoas, mas sim no modo como acontece uma hierarquia de poder entre as chamadas “cores de pele”.

      entendo as suas dúvidas e tentarei lhe explicar.

      eu me identifico enquanto pessoa não-branca. poderia falar que sou uma pessoa negra, visto que dentro da hierarquia de “raças” que existem no brasil, os privilégios que as pessoas brancas recebem, eu não tenho acesso, mas sei que ao me afirmar como pessoa negra, faria com que muitas outras pessoas negras no brasil questionassem a minha identificação, pois eu também não sofro racismos como pessoas negras. então, eu gosto de me identificar enquanto pessoa não-branca.

      eu acho que se você quer se fantasiar de pelé, ótimo. agora, se você for uma pessoa branca, jamais pinte a sua pele para dar uma autenticidade a fantasia. explico. se você for uma pessoa branca e quer se fantasiar de pelé e para isso escolhe pintar sua pele de preta, você, querendo ou não, estará praticando blackface. uma questão importantíssima sobre a prática blackface que passa despercebida nas e pelas reflexões de muita gente, é que essa prática acontece diante de um conjunto de fatores que fogem das escolhas individuais (ou não) do artista que se “pinta” de preto.

      vamos pegar o exemplo desse caso do Garibaldis & Sacis: se uma pessoa, artista, deseja de alguma forma “se fantasiar” ou “representar” uma personagem negra/negro, e para dar mais autenticidade para tal personagem, essa pessoa coloca uma malha preta sobre o corpo e, depois de “fantasiada”, essa pessoa sobe em cima de um trio elétrico, ficando visível para várias pessoas, uma multidão com uma diversidade enorme de identidades, e tudo isso acontecendo numa enorme rua de Curitiba, que foi fechada somente para o carnaval, essa pessoa, querendo ou não, estará fazendo blackface.

      o artista fez a sua escolha de dar autenticidade para a personagem que quer representar. mas as pessoas negras que o estão vendo, e o vendo com uma malha sobre o corpo, não entendem dessa forma, por motivos múltiplos: seja por não conhecer a história da personagem; seja por ser negra e achar que se quer ter um personagem negro em cima do trio elétrico, que colocassem um negro; seja por não se achar representada, pois enquanto pessoa negra, certamente cresceu com pessoas brancas fazendo “piadinhas” com a cor da sua pele e, ao ver alguém usando uma malha preta, em cima de um trio elétrico, no carnaval… a pessoa lerá como blackface. você acha que a pessoa pensará se aquela fantasia é uma tentativa de representação autêntica de um personagem OU que aquela fantasia é uma tentativa de se zombar/azucrinar/”zoar” com a pele da pessoa negra que assiste?

      e ainda tem o detalhe de que na multidão do carnaval, não estão somente pessoas negras ou pessoas brancas que não são racistas, têm de tudo! gente machista, racista, sexista etc. e todas essas pessoas estarão olhando para aquela “fantasia”, para aquela pessoa com uma malha preta sobre o corpo e isso ajudará a sedimentar, no imaginário dessa pessoa branca racista, a ideia de que pessoas negras são fantasias, coisas, objetos, que podemos nos vestir durante o carnaval, rir com a nossa fantasia, se divertir e jamais refletir sobre as atitudes racistas que se tem.

      o artista deve ter conhecimento, assim eu acho, que ao colocar uma fantasia para representar uma personagem, aquela fantasia será lida de diversas formas e uma delas pode ser por um viés preconceituoso e racista, como foi o caso, acredito.

      o que é se fantasiar de mulher? se você está se referindo aos homens cisgêneros heterossexuais que usam roupas curtas consideradas socialmente femininas, maquiagens berrantes e e adotem trejeitos considerados socialmente femininos SOMENTE no período do carnaval, e para se “divertir”, esse homem estará sendo transfóbico, transmisógino, e muito provavelmente ele é machista. agora, se o tal homem em si, usa roupas consideradas socialmente femininas ao longo do ano inteiro, e não somente no carnaval, eu não vejo problema algum. eu vejo problema e preconceito em homens transfóbicos, machistas e sexistas, que fazem uso de roupas ditas femininas para criar a personagem da “mulher piranha”, fazendo os amigos rirem com a caricaturagem dele. te dou a dica de conversar com uma mulher trans* ou travesti, para você refletir melhor sobre esse assunto, se assim quer.

      o ponto que eu quero chegar é na tal representatividade. e você procurar textos ótimos sobre esse assunto nesse blog aqui: http://blogueirasnegras.org/

      no mais, espero ter solucionado as suas dúvidas, qualquer coisa, estamos aqui para debate e conversa.

  6. A Giordani disse:

    Prezados, para ampliar um pouco o escopo deste debate, sugiro que procurem informações sobre o Ciclo do Gado e os Autos de Boi, pelo que me parece, manifestações que acontecem desde o sec. XVII (negos chicos e blackfaces são duas alteridades muito diversas), incluso, é o mote utilizado pelos trabalhadores rurais e coletivos urbanos, sobretudo no Maranhão, para expressar jocosamente sua crítica social, inclusive na atualidade!
    outra leitura interessante pode ser sobre as origens do carnaval no Brasil, entrudos, cordões e ranchos…
    menos prolixidade por favor!

    • zahara disse:

      A Giordani, antes de qualquer coisa, esse blog é meu, da Zahara, portanto, eu responderei por mim e não por todas as pessoas e coletivos que compõe a carta.

      Obrigada pelas sugestões, procurarei saber sim, mas eu confesso que eu não entendi o motivo que te faz dar essas sugestões para a gente. Será que você está partindo do pressuposto de que nós, que escrevemos a carta, não sabíamos que a pessoa que usou uma malha preta sobre a pele estava tentando, repito, estava TENTANDO representar uma personagem da cultura do bumba meu-boi do Maranhão (diga-se de passagem, num contexto curitibano racista e moralista)? Não sei se o seu motivo em nos sugerir pesquisas é esse, mas eu te responderei partindo desse ponto.

      A carta de repúdio foi escrita contra a prática blackface representada em cima de um trio elétrico no carnaval em Curitiba. Quem estava no comando desse trio elétrico? Garibaldis & Sacis. Portanto, a carta é dirigida as pessoas que compõe o bloco. Quero dizer com isso, que qualquer grupo de pessoas que estivesse em cima do trio elétrico, receberia a devida denúncia de racismo.

      não nos preocupamos em contextualizar sobre a tal personagem que se tenta reproduzir em cima do trio elétrico, pois a intenção não era essa, jamais foi essa; a questão que nos propomos a refletir perpassa os limites da arte, seja ela do Maranhão ou de Curitiba, chega na carne humana, a negra, e ajuda a produzir seu sofrimento. a intenção, repito, era a de discutir e problematizar sobre a prática blackface em si.

      e depois de ler vários comentários sobre o texto, alguns criticando de forma desnecessária e outros de forma positiva, mas muitos desses ajudando na reflexão dessa prática no carnaval na cidade, eu percebi que uma questão importantíssima sobre a prática blackface passa despercebida nas e pelas reflexões de muita gente. acredito ser importante ter em mente que essa prática acontece diante de um conjunto de fatores que fogem das escolhas individuais (ou não) da pessoa artista que se “pinta” de preto ou coloca uma malha preta sobre o corpo.

      se uma pessoa, artista, deseja de alguma forma “se fantasiar” ou “representar” uma personagem negra/negro, e para dar mais autenticidade para tal personagem, essa pessoa coloca uma malha preta sobre o corpo e, depois de “fantasiada”, essa pessoa sobe em cima de um trio elétrico, ficando visível para várias pessoas, ou melhor, uma multidão com uma diversidade enorme de identidades, e tudo isso acontecendo numa enorme e conhecida rua de Curitiba, que foi fechada somente para o carnaval, essa pessoa, querendo ou não, estará fazendo blackface. e explico.

      a pessoa artista fez a sua escolha de dar autenticidade para a personagem que quer representar. mas as pessoas negras que o estão vendo, e o vendo com uma malha sobre o corpo, não entendem dessa forma, por motivos múltiplos: seja por não conhecer a história da personagem; seja por ser negra e achar que se quer ter um personagem negro em cima do trio elétrico, que colocassem um negro; seja por não se achar representada, pois enquanto pessoa negra, certamente cresceu com pessoas brancas fazendo “piadinhas” com a cor da sua pele e, ao ver alguém usando uma malha preta, em cima de um trio elétrico, no carnaval, seja por vários outros motivos… você acha que a pessoa pensará se aquela fantasia é uma tentativa de representação autêntica de um personagem OU que aquela fantasia é uma tentativa de se zombar/azucrinar/”zoar” com a pele da pessoa negra que assiste?

      e ainda tem o detalhe de que na multidão do carnaval, não estão somente pessoas negras ou pessoas brancas que não são racistas, têm de tudo! gente machista, racista, sexista etc. e todas essas pessoas estarão olhando para aquela “fantasia”, para aquela pessoa com uma malha preta sobre o corpo e isso ajudará a sedimentar, reificar, reproduzir um imaginário de pessoas negras nas pessoas racistas. a ideia de que pessoas negras são fantasias, coisas, objetos, que podemos nos vestir durante o carnaval, rir com a nossa fantasia, se divertir e jamais refletir sobre as atitudes racistas, se propaga, queira a pessoa artista ou não.

      a pessoa artista deve ter conhecimento, assim eu acho, que ao colocar uma fantasia para representar uma personagem, aquela fantasia será lida de diversas formas e uma delas pode ser por um viés preconceituoso e racista, como foi o caso, acredito.

      agora, um ponto interessante pós-divulgação da carta, é que apareceram algumas outras denúncias sobre o bloco. no grupo do facebook “Marcha das Vadias Curitiba”, uma pessoa negra e lgbt, falou que na época em que colava junto com o bloco, não se sentia representada pelo mesmo, pelo fato de que eles não estavam abertos a refletir sobre algumas posturas racistas e preconceituosas que tomavam, seja pela cantoria de marchas de carnaval que são vistas como sexistas, lesbofóbicas e homofóbicas, ou pelo uso do blackface.

      eu estou com a impressão de que algumas pessoas estão lendo a carta e pensando que nós, que a escrevemos, odiamos o bloco. gente, eu nem sei quem são eles. eu não vou ficar gastando energia cósmica da minha vida odiando um bloco carnavalesco. a nossa intenção ao escrever a carta era ampliar o debate e a conversa sobre essa prática ridícula e preconceituosa, que é o blackface em Curitiba. e conseguimos. vejo que muitas pessoas, independente do ponto de vista, dos argumentos etc, estão conversando sobre isso.

      a carta tem uma denúncia válida, e após a carta outra denúncia, no mesmo teor, apareceu. racismo JAMAIS será aceitado. não é por que o bloco possui ligações com a “cultura” negra, que ele está isento de ter atitudes que podem ser lidas como racistas. ninguém está isento de nada. assumir os erros é sempre válido.

      prolixidade? gente… sinceramente, por favor peço eu! se situe! não sei quem você é, mas falar que uma carta de denúncia de atitude racista, num contexto curitibano, é ser prolixo? gente… quando me falaram que se eu escrevesse a carta eu estaria mexendo com o “vespeiro” das artes curitibana, eu não imaginava que seria isso. é de ficar triste perceber que as pessoas ficam defendendo a arte dos outros, diante de denúncias de racismo. é de ficar muito triste mesmo.

  7. A Giordani disse:

    Ops. Prezadxs!

  8. Pingback: Reflexões Carnavalescas | Ancoragem

  9. G&S disse:

    Nota de esclarecimento

    No último domingo, dia 08 de fevereiro, uma de nossas artistas homenageou um dos personagens mais fantásticos das nossas culturas populares. Ela poderia estar fantasiada de Super-homem, Capitão América ou quaisquer máscaras vienenses e helênicas, mas escolheu o personagem Nego Chico.

    Os Negos Chicos, os Mateus e Beneditos são nossos heróis, personagens vencedores nas labutas de seus dramas teatrais. A máscara do Nego Chico é uma das joias estéticas inventadas pelo povo e largamente utilizada no Brasil, representando um ser fantástico muito presente no imaginário da cultura popular.

    A intenção da nossa companheira foi de fazer elogios a este personagem tão querido. A peça (máscara) que vestiu foi utilizada por anos no espetáculo “Guarnicê, uma singela opereta popular”, em que ajudou o Grupo Mundaréu e suas plateias, país afora, a refletir sobre a genialidade da criação popular brasileira. Podemos dizer que se trata de uma peça de museu, do Mundaréu e da cultura teatral e musical desta cidade.

    O Bloco Garibaldis e Sacis lamenta que o personagem em questão tenha sido motivo de ofensa às pessoas que assinaram a nota (Coletivo Sou Neguinh@, Zahara, Priscila Souza, Brinsan Ferreira N’tchala, Marjory Rocka, Marco de Oliveira e Eduardo José de Araújo) e aos demais que, porventura, tenham se sentido ofendidos também, uma vez que não houve nenhuma intenção do mesmo, apenas a de fazer uma homenagem a um personagem que consideramos parte do panteão de heróis que precisam ser confirmados como preciosidades da nossa dramaturgia popular tradicional. Lamentamos que a nossa manifestação artística tenha ofendido pessoas que participam de uma luta com a qual concordamos e que respeitamos.

    ARCAGS (Associação Recreativa e Cultural Amigos do Garibaldis e Sacis)

  10. Jhonatan disse:

    Zahara,
    Boa tarde!
    Eu li seu Post e concordo plenamente com que você falou diante desses blocos de ruas.
    Ainda mais o fato de você ter comentado a situação em que homens se fantasiam de mulher.
    Isso é um absurdo! Homens acabam fazendo “chacota” das mulheres que não ocupam uma grande escala na sociedade, é verídico que por meio de comentários, artigos, sites e entre outros meios de informação mostram que as mulheres são desvalorizadas, apesar das lutas ainda existem o machismo.
    Aqui na minha cidade há um bloco que é super preconceituoso diante dessa questão, acham brincadeira se fantasiarem de mulher, fere os direitos dos homossexuais, pois muitos se vestem como mulheres no seu dia a dia, não por quererem se fantasiar, mais sim por mostrarem suas personalidades diante de uma sociedade que não abriu a mente para aceitar tal fato no nosso país.
    Eu estou na luta para acabar com esse tipo de preconceito por aqui.
    No carnaval deste ano (2015), fui presenciar e saber como é de perto esse bloco e questionei muitos que estavam por lá. Estou fazendo um artigo e juntamente com este uma denuncia para acabar com isso. Se irão brincar, melhor não ferir ninguém, melhor não invadir o espaço do outro.
    Sou totalmente contra e vou correr atrás para que isso termine por aqui. É injusto. E a maioria que vestem-se de mulheres diariamente não gostam do que observam nesse bloco. Além da violência tanto verbal quanto física durante esse bloco, é impressionante como entidades públicas aceitam com tanta luta por aí para acabar com todo esse preconceito.

    • zahara disse:

      Olá Jhonatan!

      Eu só adicionaria um ponto em seu comentário, quando você fala sobre homens cis que fazem uso de roupas consideradas femininas, numa tentativa tosca e agressiva de se “vestirem” de mulher, nessas situações são as travestis e as mulheres trans* que mais sofrem com tal comportamento. Isso, além de misógino, é um caso de transfobia, nem chega a ser homofóbico, eu acredito. Realmente é muito triste e violento o modo como as pessoas LGBT são tratadas em nossa sociedade e bacana saber que existem pessoas compenetradas em mudar essa situação. Bjs

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